Entrevista

Transtornos alimentares no centro do debate

Por: Por Henrique Barbi

Transtornos alimentares no centro do debate

Dirce de Sá: “Pacientes sofrem de uma compulsão à repetição, que precisa ser trabalhada”

Psicólogos, professores e estudantes da PUC-Rio vão se reunir no III Congresso Brasileiro de Transtornos Alimentares nos dias 23 e 24 de junho. O encontro traz para o centro do debate um novo tipo de transtorno alimentar: a ‘Farmarexia’. A questão vai ser apresentada pela presidente honorária e pelo atual presidente da Sociedade Brasileira de Transtornos Alimentares (SoBraTA), os professores Dirce de Sá e Izidoro de Hiroki, do curso de Transtornos Alimentares da Educação Continuada da PUC-Rio. Organizadora do Congresso, a SoBraTA foi criada em 2018 por estudantes e professores do curso da Especialização em Transtornos Alimentares da CCE/PUC-RIO. As palestras serão on-line no dia 23, das 8h às 18h, e híbridas, no dia 24, das 9h às 13h, no Auditório Padre José de Anchieta e transmissão via Zoom. Para mais informações e inscrições, acesse www.sobrata.org.

Quais novos temas, assuntos e perspectivas desta edição do encontro?
Dirce de Sá:
A maior novidade da terceira edição do Congresso Brasileiro de Transtornos Alimentares é que estamos lançando uma nova nomenclatura, a ‘Farmarexia’. Ela é um novo transtorno alimentar que consiste no uso indiscriminado de medicamentos que não são para emagrecimento, fabricados para diabetes tipo 2, por pessoas que não têm sobrepeso ou obesidade. E isso tem consequências graves, ancoradas na lipofobia, que é sustentada pela ditadura da magreza. Uma delas é a falta de medicamentos para as pessoas que necessitam. Além disso, haverá muitos esclarecimentos sobre o manejo clínico com estes pacientes e palestras com os novos psicólogos membros da SoBraTA.

Do seu início para cá, o que houve de avanços na área de pesquisa em transtornos alimentares? Como o campo mudou ao longo do tempo?
Dirce:
Na área de cirurgia bariátrica, por exemplo, houve muito avanço tecnológico nos últimos 20 anos. A indústria farmacêutica também foi outra área muito beneficiada pelo desenvolvimento de medicações que têm ajudado as pessoas. E a fitoterapia (técnica que estuda as funções terapêuticas das plantas e dos vegetais para prevenção e tratamento de doenças), que também apresentou grandes avanços, inclusive no combate aos transtornos alimentares, como a obesidade e a anorexia.

Como a psicologia pode auxiliar no olhar para essas questões?
Dirce: O ato de comer é um ato que se torna habitual e inconsciente. A gente aprende a comer desde que nasce e adota padrões alimentares. Toda vez que a gente precisa transformar o corpo, seja emagrecendo, no caso da obesidade, ou engordando, no caso da anorexia, é de fundamental importância que haja um suporte psicológico. As equipes de tratamento de transtorno alimentar precisam da figura do psicólogo ou do psicanalista, para que o sujeito consiga ressignificar o corpo diante de uma necessidade que a saúde impõe.

Como o trabalho clínico ajuda nas reflexões sobre transtornos alimentares e corporais?
Dirce: A parte psicológica é muito importante para ajudar o sujeito a abrir espaço para o novo, porque hábitos inconscientes estão arraigados. Os pacientes que apresentam transtorno alimentar sofrem de uma compulsão à repetição, que precisa ser trabalhada psicologicamente. A mola mestra para a manutenção do comportamento repetitivo é a culpa. Quando as pessoas se sentem culpadas, elas buscam ser castigadas, e promovem esse castigo por meio do comportamento inadequado, porque ele já é conhecido e não ameaça tanto quanto o novo.