Entrevistas

Entre a Fé e o Inconsciente

Entre a Fé e o Inconsciente

(Foto: Divulgação)

Referência internacional no diálogo entre psicanálise e espiritualidade, Padre Carlos Domínguez Morano, S.J., participa da série “Identidade e Missão” na PUC-Rio

A experiência mística pode dialogar com a psicanálise e ajudar a compreender o desejo humano? Essa é a proposta da palestra “Mística e Psicanálise”, promovida pelo Conselho de Identidade e Missão da PUC-Rio em parceria com a Pastoral Universitária. O encontro será realizado na terça-feira, 2 de junho, às 13h, no Auditório da Pastoral Universitária, e terá como convidado Padre Carlos Domínguez Morano, S.J., teólogo, psicanalista e professor emérito da Universidad Loyola Andalucía. Reconhecido internacionalmente pelos estudos sobre fé, subjetividade e experiência religiosa, o sacerdote participará de uma conversa conduzida pelo professor Padre Ricardo Torri, S.J., doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. O PUC Urgente conversou com Morano sobre como o diálogo entre mística e psicanálise pode contribuir para a compreensão dos desafios contemporâneos.

Em uma sociedade atravessada por crises emocionais, excesso de estímulos e enfraquecimento das experiências coletivas de fé, como o diálogo entre mística e psicanálise pode ajudar a compreender os desafios contemporâneos da subjetividade e da busca por sentido?
A situação sociocultural que vivemos, tão sobrecarregada de tensões, incertezas e angústias, gera, ao mesmo tempo, em muitas pessoas, uma necessidade, uma urgência de paz e harmonia interna, buscada nas inúmeras ofertas que também se apresentam no amplo campo da espiritualidade. A psicanálise, nesse contexto, pode ajudar a discernir o caráter mais saudável ou também mais regressivo que essas espiritualidades podem ter: aquelas que proporcionam uma integração pessoal que promove sentido e compromisso ou aquelas que acabam nos aprisionando em um narcisismo e em um isolamento regressivo e infantilizante.

Ao longo de sua trajetória, o senhor construiu uma reflexão que aproxima psicanálise, espiritualidade cristã e experiência mística sem recorrer a reducionismos. Quais são hoje os principais desafios e também as possibilidades – desse diálogo dentro da Universidade, da Igreja e da sociedade contemporânea?
O desafio do diálogo entre psicanálise e espiritualidade continuará sendo o de aproximar-se por meio de uma escuta sem qualquer preconceito, a fim de interpretar de que modo os fatores inconscientes atuam em cada tipo de espiritualidade: se favorecem uma maior integração pessoal, que permita amar e trabalhar, ou se essas espiritualidades geram mais defesas e distanciamentos em relação a si mesmo, em cumplicidade com os medos e fantasmas que angustiam. Não cabe à psicanálise nenhum julgamento ou avaliação sobre os conteúdos formais dessas espiritualidades, mas apenas sobre as funções psíquicas que possam desempenhar. As espiritualidades, por sua vez, deveriam mostrar-se abertas às interrogações que a psicanálise possa suscitar. Somente assim, abertas às eventuais armadilhas do inconsciente, poderão alcançar um melhor desenvolvimento e amadurecimento pessoal.