Entrevistas

‘Para uma universidade comunitária, tudo está interligado’

‘Para uma universidade comunitária, tudo está interligado’

Jackeline Farbiarz: O curso de Medicina da PUC-Rio nasce, desde sua concepção, em diálogo com a extensão (Foto: Rafael Trota / VREEP)

Para a vice-reitora Jackeline Farbiarz, a extensão é o centro de gravidade da Responsabilidade Social Universitária

A extensão universitária como eixo da formação acadêmica, a responsabilidade social como compromisso institucional e a inovação como ferramenta para ampliar o impacto da Universidade na sociedade. Com mais de 13 mil ações extensionistas registradas em 2025, a PUC-Rio reafirma sua vocação comunitária e o compromisso de formar profissionais conectados aos desafios contemporâneos. Em entrevista ao PUC Urgente, a Vice-Reitora de Extensão e Estratégia Pedagógica, professora Jackeline Lima Farbiarz, apresenta as principais prioridades da VREEP e defende uma universidade em que ensino, pesquisa e extensão são dimensões indissociáveis da formação. Na conversa, ele destaca o papel da extensão na promoção da excelência comunitária, comenta a integração dessa prática ao novo curso de Medicina e reflete sobre os desafios e oportunidades trazidos pela Inteligência Artificial para a educação. A entrevista também aborda a relação da Universidade com a sociedade e a construção de soluções voltadas ao bem comum.

Quais as principais prioridades da Vice-Reitoria de Extensão e Estratégia Pedagógica? Como elas se refletem na Comunidade PUC e na relação com a sociedade?
A VREEP foi constituída em novembro de 2022 a partir de um pressuposto inegociável: a PUC-Rio é uma universidade comunitária, e sua excelência se sustenta na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Nossa prioridade central é, portanto, fazer com que toda a universidade viva em extensão — não como apêndice ou atividade complementar, mas como dimensão constitutiva da formação.
Essa prioridade se desdobra em quatro dimensões articuladas. O Campus Inovador Educativo moderniza ambientes e práticas pedagógicas, integrando metodologias ativas e formação docente continuada. O Laboratório Vivo de Cuidado, Inclusão e Inovação Social estende a saúde integral à comunidade interna e a populações vulnerabilizadas, ancorado no Ambulatório Escola São Lucas, no Instituto de Odontologia e na Clínica de Psicologia Aplicada. O Campus Digital Estendido (CDE) organiza a permeabilidade entre as dimensões física e digital da formação, com tecnologias emergentes mediando — nunca substituindo — o encontro entre pessoas. E a formação de Novas Gerações de Líderes se apoia na sede da SDSN Brasil, na Empresa Júnior PUC-Rio e nos programas voltados a juventudes.
Cinco coordenações operam essas dimensões em rede horizontal, sem hierarquias rígidas. Para a Comunidade PUC, isso se traduz em 625 turmas com componente extensionista, 560 docentes envolvidos e mais de 13 mil ações registradas em 2025. Para a sociedade, traduz-se em uma universidade que atravessa seus muros, vai ao encontro de comunidades, do meio empresarial, do poder público — e retorna transformada por esses encontros. A síntese é simples e exigente: formar pessoas melhores para o mundo, comprometidas com o bem comum.

De que forma as ações extensionistas, alinhadas à responsabilidade social, contribuem para expandir a excelência comunitária da PUC-Rio?
Na PUC-Rio, a extensão é o centro de gravidade da Responsabilidade Social Universitária (RSU). A RSU não é um programa específico nem um conjunto de ações pontuais: é a forma como a instituição responde, com coerência entre discurso e prática, às demandas da sociedade. É na extensão que essa coerência se torna observável e mensurável.
A Universidade vive agora um momento decisivo dessa demonstração. A Portaria MEC nº 71, de 23 de janeiro de 2026, instituiu novo marco para o recredenciamento das Instituições Comunitárias de Educação Superior (ICES) e exige um relatório de responsabilidade social construído em torno de seis critérios substantivos: metodologia, inserção territorial, redes e parcerias, articulação ensino-pesquisa-extensão, cuidado e permanência, resultados qualitativos e quantitativos. Não bastam intenções. É preciso evidência territorial.
Essa exigência converge com cinco compromissos institucionais que orientam a VREEP: com a pessoa, em sua singularidade; com a comunidade interna, por meio de estruturas que sustentem o cuidado; com a sociedade, pela responsabilidade para com grupos historicamente marginalizados; com o ecossistema, reconhecendo-nos como parte de redes mais amplas; e com a coerência sistêmica, ciente de que a excelência não se mede por indicadores isolados, mas pela articulação entre ensino, pesquisa, extensão, gestão, infraestrutura e comunicação.
A excelência comunitária se expande precisamente nesse movimento. Quando estudantes do primeiro período de Engenharia, em diálogo com moradores do Complexo do Alemão, desenvolvem tintas de materiais recicláveis que reduzem a temperatura interna das residências. Quando o Ambulatório Escola São Lucas alcança cerca de 47 mil atendimentos entre 2018 e 2025. Quando o Programa Travessia oferece a Bolsa Mais 50 para a inclusão etária de calouros maduros. Quando o projeto Saúde para o Bem Viver (PROEXT-PG/CAPES) leva, em seus metaprojetos Amazonizar e Gávea do Rio, ações de saúde e saneamento a territórios da Ilha do Marajó e à Comunidade Quilombola de Boavista. A extensão torna audível, dentro e fora da PUC-Rio, aquilo que a universidade já pratica há décadas.

A graduação em Medicina representa um marco para a Universidade. Como a extensão universitária dialoga com este novo curso e colabora para ampliar o impacto social da formação médica?
O curso de Medicina da PUC-Rio nasce, desde sua concepção, em diálogo com a extensão. Não como decoração ou apêndice, mas como espinha dorsal: a extensão curricularizada compõe 1.160 horas — 14,4% da carga horária total —, superando o mínimo de 10% exigido pela Resolução CNE/CES nº 7/2018 e pela Resolução PUC-Rio nº 05/2022.
Essa integração se manifesta nos eixos verticais que estruturam o currículo. A Atenção Primária à Saúde, distribuída longitudinalmente ao longo de oito períodos — do Território à Atuação Interprofissional —, insere o estudante no cuidado de indivíduos, famílias e comunidades em territórios concretos. As Práticas Integradoras Profissionais e Interprofissionais o colocam em projetos extensionistas em territórios vulnerabilizados — Rocinha, Vidigal, Parque da Cidade, Zona Oeste. O eixo Pesquisa, Tecnologia, Inovação e Inteligência Artificial em Saúde articula formação clínica e formação digital. E o eixo Saúde, Espiritualidade e Humanidades, alinhado à missão comunitária da PUC-Rio, sustenta a ética e o cuidado integral como dimensões inseparáveis da prática médica.
A extensão amplia o impacto social desse novo curso de três modos. Primeiro, conectando-o ao Sistema Único de Saúde por meio dos cenários de prática — Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, Hospital Municipal Jesus, Hospital Municipal Miguel Couto, rede da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Segundo, integrando-o ao ecossistema de cuidado já consolidado pela VREEP: o Ambulatório Escola São Lucas, o Instituto de Odontologia, a Clínica de Psicologia Aplicada, a Casa Comum como Estação de Ecologia Integral. Terceiro, alinhando-o às dez dimensões da saúde — física, mental, intelectual, social, espiritual, vocacional, financeira, digital, cultural e ambiental — que orientam o Laboratório Vivo da PUC-Rio. Forma-se, assim, um médico comprometido com a realidade social do território e com o cuidado integral da pessoa, da família e da comunidade.

A Inteligência Artificial tem transformado diferentes áreas do conhecimento. Quais os principais desafios e oportunidades que essa tecnologia traz para a extensão universitária e para a educação integral promovida pela PUC-Rio?
A Inteligência Artificial exige, antes de qualquer entusiasmo ou recusa, uma pergunta ética bem formulada. Não nos interessa perguntar apenas “que tecnologia adotar?” — interessa perguntar a que tipo de mediação humana ela serve, e se serve à dignidade da pessoa. A Igreja Católica acaba de formular essa pergunta de modo radical. Em 15 de maio de 2026, no 135º aniversário da Rerum Novarum, o Papa Leão XIV assinou sua primeira Encíclica, Magnifica Humanitas — sobre a salvaguarda da pessoa humana no tempo da inteligência artificial, tornada pública pelo Vaticano em 25 de maio. O documento parte de duas premissas que orientam nossa leitura institucional: a tecnologia não é uma força antagônica à pessoa nem um mal em si, mas tampouco é neutra — ela assume o rosto de quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza. Daí o chamado central da Encíclica: “desarmar” a IA — não rejeitá-la, mas impedir que ela se torne instrumento de dominação, exclusão e concentração de poder; permitir que ela sirva ao bem comum e, sobretudo, que permaneçamos humanos.
Sob essa orientação, a IA representa, para a extensão e para a educação integral promovida pela PUC-Rio, simultaneamente um desafio e uma oportunidade. Como desafio, exige formação ética de estudantes e docentes, vigilância sobre vieses, atenção especial à proteção dos mais jovens — como o Papa pede expressamente —, salvaguarda da Lei Geral de Proteção de Dados, e recusa a soluções que reduzam a pessoa a um perfil de dados ou que substituam o encontro genuíno por simulacros de interação. Como oportunidade, permite personalizar trajetórias formativas, ampliar o acesso a saberes, mediar projetos extensionistas com comunidades distantes, e reconhecer competências formativas que o diploma sozinho não comunica com a granularidade necessária.
No Campus Digital Estendido (CDE), a IA atua como mediação — assistente do docente, jamais sua substituta — no horizonte de uma educação por competências em que a aprendizagem presencial e a remota se complementam mutuamente. Para nós, não há distinção real entre o físico e o digital: há uma só experiência educativa, atravessada por mediações diversas, todas a serviço da formação integral. Em 2025, inauguramos o Programa de Desenvolvimento Docente tendo a IA como primeiro eixo temático, em parceria com o Instituto Bhering de IA da PUC-Rio — seis encontros síncronos que prepararam professores para essa nova competência. Em 2026, o programa ganha novos eixos — práticas extensionistas, inclusão e metodologias de ensino —, agora à luz da Magnifica Humanitas. Para a PUC-Rio, a IA é instrumento de uma pedagogia que reafirma o primado da pessoa sobre as coisas, do espírito sobre a matéria, da ética sobre a técnica.

Quais novas iniciativas e parcerias a Vice-Reitoria de Extensão pretende lançar, neste ano, para potencializar os benefícios da Universidade à sociedade?
A agenda de 2026 organiza-se em torno de um movimento estratégico: tornar a Responsabilidade Social Universitária da PUC-Rio plenamente avaliável e mensurável. A entrega do Relatório de Responsabilidade Social ao MEC, em 15 de julho de 2026, no contexto do recredenciamento como ICES (Portaria MEC nº 71/2026), está sustentada por um painel integrado de RSU — desenvolvido no âmbito do Campus Digital Estendido em articulação com a Vice-Reitoria Comunitária — que reúne, em duas fases, as iniciativas declaradas pelos docentes e a autoavaliação dos diretores de unidade. É uma infraestrutura digital nova, conectada à governança institucional, que torna a extensão da PUC-Rio observável em escala, por eixo programático, por território e por Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Em paralelo, lançamos em fevereiro a série Diálogos sobre Extensão e Estratégia Pedagógica, que reúne a comunidade acadêmica em torno de questões pedagógicas contemporâneas. Para o Programa de Desenvolvimento Docente, abrimos três novos eixos formativos em 2026 — práticas extensionistas, inclusão e metodologias de ensino — complementando o eixo inaugural de Inteligência Artificial. Está em curso, também, a consolidação dos Planos Pedagógicos de Extensão de cada departamento, instrumentos que permitem identificar sinergias entre áreas e fomentar ações interdisciplinares estruturadas, evitando a fragmentação histórica das ações.
Outras frentes em ampliação: o Programa Travessia e a Bolsa Mais 50, voltados à inclusão etária e à ressignificação da vida laboral; a participação no Hackaton de Extensão em parceria com a PUC Minas; a expansão da Educação a Distância da PUC-Rio com novos cursos — entre eles o CST em Gestão Financeira EAD; o aprofundamento da Casa Comum como sede da SDSN Brasil e nó das redes globais AUSJAL, ODUCAL, RUC, IFCU e CGUL; e a evolução de uma nova arquitetura de informação do portal estudantil, que dará coerência à experiência acadêmica do aluno. Cada iniciativa nasce do mesmo princípio orientador: a universidade que produz conhecimento no encontro com a alteridade, sob inspiração da Ecologia Integral.

Em um cenário de rápidas mudanças sociais e tecnológicas, como a PUC-Rio busca manter a extensão universitária inovadora, interdisciplinar e conectada às demandas comunitárias?
A inovação na extensão da PUC-Rio nasce de uma posição teórica clara: inovar é responder criativamente às dores do tempo presente, e essa resposta só é possível quando a universidade ocupa uma posição que lhe permita ver a sociedade de fora o suficiente para percebê-la, e de dentro o suficiente para senti-la. Esse exercício exige escuta antes da fala, compenetração antes do retorno. É o que entendemos por universidade em saída.
Operacionalmente, isso se traduz em onze eixos programáticos institucionais que articulam as ações extensionistas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: tecnologias e inovação; linguagens e expressão artístico-cultural; diálogo social e cidadania ativa; inclusão e diversidade cultural; cidades sustentáveis e resilientes; saúde e bem-estar; políticas de assistência social e inclusão; metodologias ativas e desafios complexos; sustentabilidade e ASG; direitos humanos e justiça social; empreendedorismo e economia criativa. Esses eixos atravessam departamentos, recusando a fragmentação disciplinar que, historicamente, isolou a extensão como atividade de menor valor acadêmico.
A interdisciplinaridade é cultivada em três escalas. Dentro da universidade, pela articulação entre as cinco coordenações da VREEP — Inovação e Estratégia Pedagógica, Programas Extensionistas e Engajamento Comunitário, Experiência Digital, Ludificação e Criatividade, Educação a Distância — e pela colaboração permanente com as demais Vice-Reitorias. Na cidade, pela atuação em territórios concretos, em diálogo com o poder público, o setor privado e organizações da sociedade civil. No mundo, pela inserção em redes como SDSN Brasil, AUSJAL, ODUCAL, RUC, IFCU, CGUL e a Cátedra UNESCO de Leitura.
A conexão com as demandas comunitárias é, por fim, uma postura institucional. A Casa Comum — sede da SDSN Brasil — é o lugar onde saberes acadêmicos e ancestrais se encontram em equidade. É lá que a PUC-Rio aprende que tudo está interligado e que a universidade só se mantém inovadora, interdisciplinar e comunitária se preservar essa disponibilidade ao encontro — com o rosto concreto de cada pessoa, com cada território, com a Casa Comum que nos cabe cuidar.