‘Estamos propensos a atrair mais investimentos e grandes projetos’
Por: Patrícia Bueno*
15 de junho de 2026 as 06:30
Padre Anderson ressalta avanços como o bom Índice de Liquidez da PUC-Rio: ‘Estamos propensos a atrair mais investimentos e grandes projetos’ (Foto: Eduardo Herculano)
PUC-Rio: virada histórica nas finanças impulsiona inovação, extensionismo e parcerias estratégicas
A PUC-Rio vive uma transformação inédita nas finanças e na capacidade de construir, conjuntamente, o futuro. Sob a reforma gerencial iniciada, em 2022, por Padre Anderson Antonio Pedroso, S.J., a Universidade reduziu à metade um déficit estrutural em educação e pesquisa. Ganhou fôlego para atingir, em 2025, um superávit global de quase R$ 81 milhões, uma reserva financeira de aproximadamente R$ 400 milhões e uma sólida liquidez corrente. “Isso nos deixa propensos a atrair mais investimentos e grandes projetos, preservando a nossa essência e a nossa missão educacional. A alma da Universidade é educar pessoas e servir à sociedade”, enfatiza Padre Anderson.
A guinada financeira extrapola os resultados históricos. Representa uma reconstrução institucional baseada em responsabilidade fiscal e transparência, pilares que fortalecem a vocação comunitária da Universidade. Recém-chegado de uma imersão em gestão e liderança na Harvard Business School (HBS), nos Estados Unidos, Padre Anderson observa que a experiência foi importante para “consolidar decisões estratégicas adotadas pela administração da PUC-Rio e abrir novas perspectivas”.
Delas fazem parte, por exemplo, o investimento num ensino de Inteligência Artificial alinhado à salvaguarda humana defendida pelo Papa Leão XIV na recém-lançada Encíclica Magnifica Humanitas. “É importante formar profissionais capazes não só de gerenciar as ferramentas tecnológicas, mas também de pensar criticamente as lógicas profundas que governam a IA, para mantermos nossa essência humana”, aponta o Reitor da PUC-Rio, em entrevista desdobrada no PUCcast.
O senhor acaba de concluir o Programa de Gestão Geral na Harvard Business School (HBS), voltado para lideranças seniores. Como foi esta experiência?
Comecei a me interessar mais por gestão devido à minha função na PUC-Rio e fui aprendendo com a experiência. O programa da Harvard Business School (HBS), pareceu o melhor para me aprofundar na gestão financeira, contábil e na construção de valores. Fiquei bem impressionado com o trabalho de liderança ensinado pelo método Harvard, que é baseado em casos. Eu me identifiquei muito com essa forma de ensino, pois os jesuítas valorizam a categoria da experiência, base dos exercícios espirituais, da pedagogia inaciana e da gestão.
De que forma esta formação avançada tem contribuído em sua atuação como Reitor da PUC-Rio?
Existe uma cultura dos jesuítas de boa administração, desde o século XVI. Ela preza pelo cuidado dos bens, pela responsabilidade sobre o patrimônio. Nossa missão é espiritual, mas o cuidado material é necessário. Aqui na PUC, tivemos um desafio muito grande neste sentido. Não somos empresa, embora tenhamos todas as características de uma empresa: pessoas empregadas, direitos trabalhistas e estudantes que confiam na instituição. Trabalhamos ao lado de pessoas bem informadas, que se aprofundaram para entender as dificuldades financeiras e econômicas da Universidade, sem deixar de lado a nossa essência e a nossa missão educacional. A alma da Universidade é educar pessoas e servir à sociedade.
Como o curso em Harvard ajudou a equilibrar as demandas gerenciais e financeiras com as demandas educacionais e comunitárias?
Na Harvard Business School (HBS), aprendi muito sobre responsabilidade fiscal, contábil e métodos financeiros, por meio do estudo de casos variados. O método de ensino me ajudou a enxergar a PUC com outros olhos, mas também a confirmar muitas das nossas decisões. Além disso, entendi que há novas possibilidades e outros cuidados que devemos tomar. O curso me influenciou a escrever o “Caso PUC”, considerando as dificuldades, os sucessos em diversas dimensões e os desafios atuais. Isso é essencial para a construção e o aprimoramento da nossa sustentabilidade financeira, deixando claro que a educação é nosso maior valor: jamais podemos deixar de administrá-la bem. A PUC-Rio é uma Universidade de direito privado com uma função comunitária, e a experiência na HBS me ajudou a confirmar essa vocação.
Em relação à sustentabilidade financeira e à construção de novas parcerias, o senhor acredita que a PUC-Rio passa por uma virada histórica?
Sim. Passamos por uma situação delicada, com um déficit estrutural (ensino e pesquisa) de R$ 60 milhões por ano, de 2013 a 2023. Já diminuímos este déficit à metade, o que nos deu fôlego para atingirmos resultados históricos, como superávit global de quase R$ 81 milhões, em 2025; melhora expressiva da liquidez; e reserva de aproximadamente R$ 400 milhões. Estes números resultam de um planejamento estratégico articulado à reforma gerencial iniciada em 2022, com a participação da comunidade universitária. A guinada administrativa se reflete em avanços como o crescimento robusto de receitas, sobretudo em projetos e convênios, e a estabilidade dos custos acadêmicos.
Gosto de usar a metáfora do navio. Durante anos, a PUC-Rio navegou como um grande navio universitário. O casco era sólido (identidade, missão, qualidade acadêmica), mas o porão acumulava água e o peso estava mal distribuído, devido ao déficit estrutural de ensino e pesquisa e a compromissos que pesavam sem dar estabilidade. Isso exigia um bombeamento constante para o navio não adernar.
A partir de 2022, a tripulação reorganiza o navio, redesenha a rota (Plano Estratégico), instala medidores em cada compartimento (controles por unidade), separa o que é carga útil, o que é lastro necessário e o que é, digamos, água de porão (Plano Diretor Financeiro). O navio continua levando a mesma miss]ao a bordo, mas agora sabe exatamente que peso entra, que peso sai e onde é preciso limpar e drenar.
Em 2024 e 2025, além de reduzir vazamentos e tirar boa parte da água do porão, o navio passa a receber mais carga valiosa e bem arrumada: novos projetos, convênios, receitas diversas. É como encontrar rotas comerciais melhores e portos novos, que multiplicam o valor transportado sem encher o porão de peso inútil.
Ao mesmo tempo, a tripulação cuida do lastro certo: reservas de caixa, contratos estáveis, investimentos estruturais que aumentam a estabilidade do navio em mar agitado. O resultado é que se navega com mais folga, com boa parte dos porões secos, o lastro bem distribuído e os tanques de reserva cheios (superávit de R$ 80,9 milhões e aumento de R$ 100 milhões em caixa), pronto para enfrentar mares difíceis sem perder o rumo.
Nós fizemos o trabalho de casa e reforçamos a credibilidade da PUC-Rio, tornando-a mais sustentável e atrativa. Vamos crescer ainda mais, investindo em novidades, como o curso de Medicina e de Inteligência Artificial, porque a Universidade está se projetando para os próximos 50 anos, não só para os próximos cinco.
Qual a importância das transformações na Universidade para preservar sua vocação comunitária e extensionista?
Uma das principais expressões dos ganhos gerenciais e financeiros corresponde ao avanço substantivo do Índice de Liquidez Corrente, que indica a capacidade de saldar as dívidas no curto prazo e manter a operação saudável. Ele mostra o quanto uma organização é confiável no mercado. Nosso índice atual atesta que estamos mais aptos a atrair investimentos e grandes projetos. A credibilidade financeira e moral, com finanças saudáveis e transparência nos dados, é fundamental para manter um projeto comunitário. Quando a comunidade se envolve, a esperança vence.
Como o senhor harmoniza sua formação filosófica e humanística com a necessidade de decisões estratégicas?
A primeira Encíclica do Papa Leão XIV traz a Inteligência Artificial como a ponta do iceberg e fala sobre o fato de o cristianismo ser uma religião que não deve fugir do mundo, mas, sim, entrar no mundo e transformar a realidade. O cristianismo é uma fé para se engajar, transformar, promover o bem e criar novas estruturas. Temos que tomar cuidado com essa narrativa de que o Papa só pode falar sobre espiritualidade, pois a fé cristã é uma fé engajadora, ou seja, corresponde ao compromisso transformado. A espiritualidade me ajuda muito a manter a esperança de que podemos construir e transformar o mundo, nos aprofundando nas entranhas das realidades políticas, econômicas e comunicacionais. A PUC-Rio também professa essa tradição de transformar a realidade do mundo, e a formação ética é fundamental para isso. Santo Agostinho dizia que a esperança tem duas filhas: a indignação e a coragem. Nós precisamos ser indignados com a injustiça no mundo e ter a coragem para mudá-la.
Ainda sobre a Encíclica do Papa Leão XIV (Magnifica Humanitas), sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, de que forma a formação em IA na PUC-Rio alinha-se a esta abordagem humanista?
É fantástico ver o Papa falar sobre Inteligência Artificial e se transformar em uma referência na área, trazendo uma reflexão robusta e muito necessária. Acredito que a IA não é mais só um instrumento, é uma estrutura de lógicas algorítmicas. Eu gostaria de preparar os estudantes da PUC para não apenas saber gerenciar essas ferramentas, mas para também pensar as lógicas profundas que governam a IA. Desejo que os estudantes tenham essa capacidade crítica e possam navegar no mar de dados sem perder a própria essência. É importante nos perguntarmos sobre como vamos manter nossa essência e permanecer profundamente humanos, uma vez que estamos mergulhados nas lógicas de algoritmos. É um caminho grande a percorrer. Sigo otimista, e vamos avançar neste sentido.
Esta perspectiva dialoga, inclusive, como o seu livro recente, “Por uma poética da criatividade: o conceito de arte em Vilém Flusser”. Por qual poética da criatividade nós devemos lutar?
Uma poética comunitária. A comunidade é o espaço de renúncia de cada um, para que algo novo nasça. Só existe comunidade quando retiramos o nosso ego e agimos por um projeto comum. Eu desejo que nossa poética seja performática, aprendendo, na medida que acontecemos como universidade, a ser, de fato, comunitária. Devemos nos inspirar em uma poética comunitária, no sentido de abrir espaço para que algo novo apareça. Esse esforço é um ato de generosidade que devemos exercitar todos os dias, abrindo espaço, confiando no novo e deixando que coisas novas apareçam em vista do bem comum.
Mais informações na entrevista para o novo PUCcast, em vídeo
*Colaborou Matheus Fagundes. Estagiários sob orientação da Professora Luciana Brafman, editora do PUC Urgente.



