Entrevistas

Semana da Comunicação debate desafios do futuro da mídia

Semana da Comunicação debate desafios do futuro da mídia

Cristina Bravo, Bruna Aucar e Alessandra Cruz: aproximação entre universidade e mercado é cada vez mais necessária (Foto: Ana Beatriz Magalhães / Comunicar)

Mais de cem profissionais de diferentes áreas participam de palestras, oficinas e rodas de conversa sobre as novas dinâmicas de produção, distribuição e consumo da comunicação contemporânea

A ascensão da inteligência artificial, a consolidação da cultura de plataformas e as mudanças constantes nas formas de produzir, consumir e compartilhar informação têm transformado profundamente o campo da Comunicação. Em meio a esse cenário, universidades e profissionais da área enfrentam o desafio de acompanhar as rápidas mudanças tecnológicas sem abrir mão da formação crítica, ética e humanística dos futuros comunicadores.
Na PUC-Rio, esse debate ganha espaço na Semana da Comunicação 2026, que tem como tema “O futuro diário da Comunicação”. O evento reúne estudantes, pesquisadores, ex-alunos e profissionais do mercado em uma programação com palestras, oficinas, rodas de conversa e experiências práticas voltadas para as novas dinâmicas da comunicação contemporânea. Entre os assuntos discutidos estão inteligência artificial, cultura digital, economia criativa, desinformação, plataformas, audiovisual multiplataforma e os impactos das redes sociais na formação da opinião pública.
Em entrevista ao PUC Urgente, as responsáveis pela semana, a coordenadora de Graduação do DCOM, Bruna Aucar, a coordenadora do LabCOM, Cristina Bravo, e a professora responsável pelos eventos no DCOM, Alessandra Cruz, destacam que, diante de um mercado em constante transformação, a aproximação entre universidade e mercado se torna cada vez mais necessária. Para elas, além do domínio técnico, a formação em Comunicação precisa estimular reflexão crítica, responsabilidade social e compreensão dos impactos culturais e políticos produzidos pelos ambientes midiáticos digitais.

Diante das mudanças no mercado da comunicação, quais têm sido os principais desafios para atualizar a formação oferecida pela graduação da PUC-Rio?
Bruna Aucar:
Um dos principais desafios tem sido acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas e das mudanças nas formas de produção, circulação e consumo da comunicação. Hoje, os estudantes precisam compreender um ecossistema muito mais complexo, marcado pela digitalização, pela cultura de plataformas, pela inteligência artificial e pelas novas dinâmicas do mercado de trabalho. No Departamento de Comunicação, buscamos atualizar constantemente a formação sem perder a base crítica e humanística que sempre caracterizou nossos cursos. O desafio não é apenas ensinar novas ferramentas, mas formar profissionais capazes de interpretar as transformações sociais, culturais e econômicas que atravessam a comunicação contemporânea. Também temos buscado aproximar ainda mais a graduação das demandas do mercado e das discussões atuais, incorporando temas como economia criativa, mídias digitais e democracia, desinformação, audiovisual multiplataforma e comunicação orientada por dados.

Como a Semana de Comunicação pode ajudar os alunos a se conectarem mais com as transformações do mercado e as novas possibilidades profissionais?
Cristina Bravo:
A Semana de Comunicação é um evento de conexão entre a formação acadêmica e as rápidas transformações do mercado, que vai aproximar nossas(os) alunas(os) das novas linguagens, tecnologias e dinâmicas profissionais que estão redefinindo a área. Mais do que apresentar tendências, é uma oportunidade de troca direta com profissionais, pesquisadores, criadores de conteúdo, empreendedores e ex-alunos que já atuam em diferentes frentes da Comunicação contemporânea.
Ao reunir debates, oficinas, palestras e experiências práticas, a Semana de Comunicação permite que as(os) alunas(os) compreendam como as áreas dos cursos de Jornalismo e Estudos de Mídia vêm se transformando diante da cultura digital, da Inteligência Artificial, da economia dos criadores (Creator Economy), das plataformas e das novas formas de consumo de informação e entretenimento. Isto amplia a percepção sobre as possibilidades de carreira que, muitas vezes, não aparecem de forma tão evidente no currículo tradicional.

Qual a importância de promover esse diálogo entre a academia e as demandas do mercado da comunicação?
Alessandra Cruz:
Planejamos a Semana justamente com essa ideia de aproximar as práticas do mercado do ambiente acadêmico. Por isso, estamos trazendo mais de cem profissionais que atuam em diferentes áreas da comunicação e, entre eles, um número muito grande de ex-alunos. São pessoas que hoje trabalham no jornalismo, na publicidade, no mercado corporativo, no audiovisual e nas plataformas, mas que já estiveram nesse lugar, na universidade, e agora voltam para compartilhar o que encontraram lá fora e como têm sido essas experiências profissionais. A proposta é trazer isso para perto dos alunos. Não apenas para que eles entendam como se faz uma matéria, como se grava um vídeo ou como se produz determinado conteúdo, mas também para refletirem sobre esse “fazer”, que eu acho ser o grande diferencial da academia. Queremos promover justamente essa troca, esse diálogo.

A pós-graduação em Comunicação tem acompanhado debates sobre tecnologia, inteligência artificial e cultura digital. Quais temas hoje aparecem como prioridade nas pesquisas desenvolvidas na PUC-Rio?
Bruna Aucar:
As pesquisas desenvolvidas na pós-graduação têm se concentrado nas transformações tecnológicas e nos impactos sociais, políticos, culturais e econômicos do ecossistema digital e da inteligência artificial. Entre os principais eixos de investigação estão temas como desinformação, plataformização, algoritmos, regulação da internet, democracia digital e os efeitos subjetivos das redes sociais e das mídias digitais. Também se destacam estudos voltados aos impactos das plataformas na circulação da informação e nas práticas jornalísticas, discutindo fenômenos como sobrecarga informacional, confiabilidade na mídia, economia da atenção e disputas por visibilidade. São estudos que articulam comunicação, tecnologia e democracia, observando como os novos ambientes midiáticos reconfiguram tanto a esfera pública quanto as formas de sociabilidade contemporâneas.
No campo da estética e da produção de sentidos culturais, ganham relevância pesquisas sobre streaming, narrativas ficcionais, memória, imagens de arquivo, documentário, consumo e representações da juventude. Os projetos investigam como diferentes mídias e plataformas participam da construção de subjetividades, imaginários sociais e tensões simbólicas na contemporaneidade, além de refletirem sobre as transformações das experiências de consumo e fruição cultural em ambientes multiplataforma. De maneira geral, o PPGCOM PUC-Rio busca combinar reflexão crítica, inovação teórica e diálogo com os desafios contemporâneos, entendendo a comunicação como um campo estratégico para compreender as profundas mudanças culturais, políticas e econômicas da sociedade.

Quando pensamos no “futuro diário da comunicação”, qual será o papel da mídia na construção das relações sociais e da opinião pública?
Cristina Bravo:
O tema da Semana de Comunicação deste ano, não à toa, tem como objetivo discutir as transformações tecnológicas e as consequências do campo da Comunicação com o mercado e a sociedade. Neste “futuro diário da comunicação”, a mídia, sem dúvida, ocupa uma posição fundamental na formação das interações sociais e da opinião pública. No entanto, essa participação tende a ser cada vez mais caracterizada por disputas de narrativas, influência de algoritmos, uso de Inteligência Artificial.
Ao mesmo tempo, a formação da opinião pública tende a ocorrer em ambientes mais personalizados, considerando experiências informacionais individualizadas que os algoritmos proporcionam, o que pode intensificar polarizações e processos de desinformação.
Assim, a Semana de Comunicação deste ano abre espaços de diálogo para que nossas(os) alunas(os) participem de palestras, debates e oficinas que refletem estas mudanças no campo, e colabore com a formação de opinião dos futuros comunicadores.

Em um cenário em que qualquer pessoa pode produzir conteúdo, qual é o diferencial da formação em Comunicação e de que forma a Semana ajuda os alunos a compreenderem os desafios e responsabilidades da Comunicação?
Alessandra Cruz:
Todos os convites foram feitos no sentido da partilha de experiências e da construção conjunta de pensamento, porque o mercado da comunicação está passando por muitas transformações. Hoje, existe essa ideia de que qualquer pessoa que produz conteúdo já está fazendo comunicação. A experiência desses profissionais que vêm para cá acaba mostrando que não é bem assim. Um bom produto de comunicação exige intenção, propósito, reflexão e técnica. Existe toda uma construção por trás disso. Ao mesmo tempo, para esses profissionais, trocar com os alunos é uma oportunidade importante, porque os estudantes são público, espectadores e consumidores do trabalho deles. É uma chance de testar ideias, perceber o que está funcionando e entender como essa geração mais jovem interpreta os produtos midiáticos que consome.
É muito interessante pensar a Semana como esse espaço de troca e encontro, em que os alunos conseguem enxergar o que está acontecendo no mercado e perceber que comunicação não é simplesmente pegar uma câmera e produzir conteúdo. Nas palestras, oficinas e rodas de conversa, eles entendem que a Comunicação envolve técnicas, pensamento crítico e uma responsabilidade social muito grande. Isso vale não apenas para o jornalismo, que tem esse papel de forma mais evidente, mas também para as representações criadas no cinema, na publicidade e em diferentes formatos midiáticos. Todas essas produções impactam o imaginário da sociedade.