Como reparar o irreparável?
Por: Ana Beatriz Rangel*
8 de junho de 2026 as 06:30
Aza Njeri
- Você comentou sobre a necessidade de matar o Ocidente dentro de nós. O que isso quer dizer?
É um pensamento complexo, pensar o Ocidente enquanto modelo civilizatório de ser e estar no mundo. Não é efetivamente algo concreto em si, mas muito mais filosófico. Pensar a morte do Ocidente em nós é pensar a negação desse status ocidental de Humanidade, é relacionar e olhar um pouco mais para formas não ocidentais: indígenas, africanas, afro-brasileiras, ribeirinhas, quilombolas. Entender que certas propostas ocidentais são propostas de desumanização. - Estamos vivendo um momento de ataques às cotas nas universidades. Esse é um modelo de reparação frágil?
Não, as cotas não são um modelo de reparação frágil. Pelo contrário, são bem consistentes, legitimadas e têm um impacto social que a gente consegue ver na contemporaneidade. A questão é a articulação de grupos que querem fragilizar as cotas. Sentem-se ameaçados, porque já não são mais tão protagonistas. Pensar as cotas enquanto fragilidade também é um erro. Se não fosse pelas cotas, a gente não teria, por exemplo, o mundo acadêmico com teses, dissertações muito diversas, com autores negros entrando na academia enquanto produtores de conhecimento. - Qual a importância de trazer esse diálogo para dentro da universidade?
É um debate contemporâneo que a gente não pode se eximir, esta Universidade é produtora de conhecimento. Ela não pode viver numa bolha. Estamos falando efetivamente de uma universidade plural. As pessoas têm uma visão da PUC muito branca, muito rica, e a gente sabe que a realidade não é essa. Basta você passear pelo campus e você vai ver que é uma convergência de diversas realidades, colorações. A educação muda o mundo. Eu acredito profundamente na educação. A educação mudou a minha vida e tem sido, ao longo dos séculos, o caminho mais seguro de mudanças sociais. A partir do momento que se muda a narrativa, a forma de contar as histórias das pessoas pretas, tudo muda.
Aza Njeri, Professora do Departamento de Letras PUC-Rio e coordenadora do Lepecad (Laboratório de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares sobre o Continente Africano e as Afro-diásporas) mediou o debate “África e Diáspora: Como reparar o irreparável?”, no dia 25 de maio.
*Sob supervisão das editoras



